quarta-feira, 20 de maio de 2009

TER OU NÃO TER, EIS A QUESTÃO!


Parece que Shakespeare está perdendo espaço. Atualmente a célebre reflexão “ser ou não ser?” parece que está meio demodê. O que importa mesmo é TER OU NÃO TER. Ter o melhor carro, a melhor casa, a melhor mochila, a melhor canetinha do último melhor personagem do melhor canal de tv a cabo, roupa, sapato e por aí afora, ter, ter, ter.

É difícil fazer tuuudo direito, eu sei. Eu me esforço para fazer o maior número de coisas possíveis compatível com meu “nível de evolução ecológica”, ou seja, sem estresse, nem sofrimento, sem me cobrar demais. Mas tem coisas simples do dia-a-dia que podemos fazer e que nem nos damos conta do quanto é simples e fácil. Bastam duas coisas para começar: ter boa vontade e não ser escravo das “tendências de mercado do TER”.

Por exemplo: Alguém sabe me responder por que em todo início de ano letivo precisamos comprar TODO material escolar novinho para nossas crianças? Afinal, na Lista de Material não vem escrito:
1 caixa de lápis de cor NOVOS
1 caderno de recados 50 folhas NOVO
1 conjunto de canetinhas NOVA
Ou ainda:
1 caixa de lápis de cor NOVOS do Batman, Hello Kitty ou Ben 10
1 caderno de recados 50 folhas NOVO Batman, Hello Kitty ou Ben 10
1 conjunto de canetinhas NOVA Batman, Hello Kitty ou Ben 10

É realmente um absurdo atrelar o início do ano ao fato de TER QUE TER tudo novo. E de tal personagem da moda. E que por isso custa 5 vezes mais caro. O que estamos ensinando as crianças? Não creio que isso as deixe mais felizes, e se deixam é uma felicidade momentânea, porque depois disso precisarão TER de mais e mais para se sentirem felizes novamente. Criatividade é de graça e resolve muita coisa.

O que faço com meu filho desde pequeno é o seguinte (essa é a MINHA solução), coloco todo material na mesa e vamos separando o que ainda dá pra utilizar e o que não dá mais. O que dá, colocamos etiquetas novas, alguns adesivinhos de personagens pra dar uma “customizada” e então riscamos da lista. E o que realmente precisa -EU- vou comprar. Nada de levá-lo aquele mundo de “perdição” onde tudo de mais lindo e maravilhoso e desnecessário está bem ao alcance de suas mãos. NÃO. Isso é dar munição ao inimigo.

Tem também muita criança que tem mais brinquedos do que consegue brincar. Em casa fixei um limite de duas caixas médias de brinquedos em geral, e os jogos. Todo Natal e aniversário (quando ele ganha os novos) fazemos a “limpeza” e mandamos os quebrados para a coleta seletiva e os bons para doação. Espalho no chão da sala e peço para ele colocar na caixa o que quer ficar. Daquilo que sobra dou o fim necessário. Fácil, rápido e indolor.

Eu costumo comprar em brechós bons e baratos, roupas seminovas de marcas legais, modernas, tecidos e cortes bons, inclusive acessórios, bijus e sapatos. Ganho e troco com a irmã e amigas roupas que já não uso e vou doando ao passo que adquiro. Entra um no armário, sai um.

No supermercado, procuro ir sempre com lista (e levo minhas sacolas de pano), compro somente o que preciso. Nada de desperdício, olhos atentos no prazo de validade, passo longe das armadilhas de promoções ao lado de tentações. Ao passo que para as crianças as “perdições” estão embaixo, para nós estão a 1 metro e meio do chão, ao alcance de nossas mãos... tão fácil! Um perigo!

Este assunto remete a mais outros tantos, como trocar de celular a cada ano com mil opções que ninguém usa, ou TV de X polegadas por uma de mais XXX polegadas e plasma, e dessa por uma “high definition”, e por uma de mega blaster ultra qualquer coisa que vc não sabe porque, mas TEM QUE TER... é TOP de linha! Todo mundo tem... menos você.

Enfim, qual será a questão daqui algum tempo, quando não houver mais lugar onde colocar tanto resíduo (que será meu próximo assunto)? Será que precisaremos chegar ao caos (mais ainda) para voltarmos à questão de Shakespeare? Você precisa SER ou TER, qual é a sua questão?

7 comentários:

Janaína disse...

Ainda não tinha visitado o seu novo espaço.

Adorei o post e o visual do blog!

Beijos

Sylvia Manzano disse...

Eu também adorei o visual do blog.
Achei ótimas as suas soluções para não comprar tudo que a propaganda quer que a gente compre.
Sabe que algumas vezes compro alguma coisa, coloco na bolsa, vou fazer outras coisas e depois fico me esforçando pra lembrar o que foi mesmo que comprei?
Ultimamente estou conseguindo evitar radicalmente as compras nessas lojas de 1,99, que eram a minha tentação.
Sinto que o meu incosciente anda me ajudando, porque tem hora que estou namorando um sapato na vitrine, meu inconsciente (na hora) me lembra que tenho algo parecido em casa e aí, desisto de comprar.

Taís Vinha disse...

Hegli,

Muito bom seu texto. Tudo a ver com o que estamos vivendo. Leitura obrigatória para quem quer acordar e ver que a vida é muito mais do que ir ao shopping, gastar, encher o carrinho (e trabalhar como um condenado para pagar tudo isso). Demorei um pouco para me dar conta disso, mas o caminho é sem volta. Uma vez que vc tem o clique nunca mais consegue sair comprando como dantes (cruzes, parece até a revelação dos fanáticos!). Por aqui estamos vivendo de forma semelhante: material escolar novo só não der pra usar o velho, roupa nem te conto, supermercado enxuto sem aquele monte de porcariada cheia de conservantes e gorduras trans, brinquedos só no Natal e aniversário e, a verdade verdadeira, é que a criançada nem liga. Não fazem questão de marca, não ficam pedindo coisas, exageradamente (claro que eles pedem, mas não enlouquecem ninguém e sabem que não é não.) E assim vamos vivendo, muito bem obrigada, com nossos pequenos luxos, mas sem precisar pagar eternamente o cartão de crédito ou o banco por eles.

P.S: amei o texto da Rosely Sayão!

Bjs!

Taís

Hegli disse...

Sylvia querida, seja muito bem vinda. E pode citar Monteiro Lobato aqui (!) e poesia que não há censura viu... M beijos e controle seus impulsos nas lojinhas de 1,99...rs. Bjs

Hegli disse...

Ai Taís, vc me faz me sentir uma mãe melhor...rs. Passei anos me sentindo um ET de mãe porque comprava bolacha de maizena, cookie de castanha e barra de cereal para o lanche do meu filho. E quando mandava o mesmo caderno que só havia usado pela metade, ou a borracha que ainda estava inteira... Uniforme com reforço nos lugares mais gastos e a mochila e lancheira do ano anterior. Explico ao meu filho porque fazemos isso, numa linguagem que ele entenda e ele me surpreende sempre com suas colocações... as vezes até me repreende: - Mamãe, já está bom de lanche né, não vamos desperdiçar!!! (e eu aaaaaaamo isso).
Viu a matéria da Rosely. Eu tb AMEI!!!!
Bjus

Cesar disse...

POis é, Companheira Hegli!!!
Estes "filtros" para a questão do consumo fazem uma diferença enorme, tanto naquilo que adquirimos, como para aquilo que descartamos. Estas vivências integradas com os jovens ajudaria a formar mais cidadania!
Nosso grande desafio é tocar os chefes de família. As crianças estão mais abertas e são mais sensíveis, agora os adultos...... esta coisa do TER, acaba por seduzir, dar a impressão da inclusão pela posse ou pela ostentação.... combater esta cultura, ou pelo menos, usá-la com parcimônia e responsabilidade pode representar uma maneira mais ética de usufruir dos recursos.
ainda falta muito para que no nosso discurso afiado e as nossas práticas cotidianas sejam uma prática da marioria. Mas, vamos que vamos de grão em grão.... fazemos a revolução!!
Beijo e parabéns pela inciativa!
Cesinha Pegoraro

arnuv disse...

Hegli,
que maravilha seu blog!
Você aborda temas fundamentais que contribuem para a mudança de paradigmas através da educação ambiental.

parabéns pela iniciativa !

...

fez lembrar desse texto do Frei Beto...

"[...]Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus; se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório; mas se não pode comprar certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático'. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!".

...

=)